terça-feira, 27 de agosto de 2013

Resenha de Miguel Carid sobre "Do Lado do Tempo"‏.

Mukalê, Mãe Hilsa & Goldman, Márcio. Do lado do tempo: o
Terreiro de Matamba Tombenci Neto (Ilhéus, Bahia) (Histórias
contadas a Márcio Goldman). Rio de Janeiro, 7Letras, 2011. 110 pp.
Miguel Carid
(UFPR)
Campos 13(1):109-112, 2012


Para que as pessoas falem nos textos, há em primeiro lugar de se querer ouvi-las,
máxima evidente que os antropólogos, em nosso afã por explicar, esquecemos mais
vezes do que deveríamos. Do lado do tempoperdurará como o exemplo de uma
história vivida e contada, graças ao encontro de alguém que sabia e queria contar
e alguém que quis e soube ouvir. A proposta desta obra toma partido pela audição,
pela escuta atenta ao relato e à fala de Dona Hilsa Mukalê, atual Mãe de Santo do
terreiro de Matamba Tombenci Neto (Ilhéus, Bahia). Cabe a Márcio Goldman o mérito
de ter registrado e editado essas conversas, algumas transcorridas no período entre
1996 e 2009, outras lembradas de períodos bastante anteriores, nesta obra de pouco
mais de cem páginas que se lê com a leveza de uma conversa amigável.
Do lado do tempo, que não tem mais pretensão (nem menos) do que
disponibilizar ao público a fala em primeira pessoa de Dona Hilsa, é ao mesmo tempo
a narração da história do terreiro Matamba Tombenci Neto e a história da família
que o fundou. É também uma narrativa biográfica, algo raro no contexto editorial da
antropologia do país. A narração se situa tanto no contexto da autobiografia – pois
é Dona Hilsa quem conta sua vida, principalmente nos aspectos que se relacionam
com o Candomblé – como no da multibiografia, já que a narradora desenvolve as
trajetórias das pessoas mais representativas para a constituição do terreiro, desde
sua fundação em 1885 até a atualidade.
O caráter multidimensional que caracteriza o gênero biográfico é condizente
com o caráter heteróclito do terreiro. O livro revela, entre outros aspectos, práticas
religiosas, de resistência, acontecimentos históricos, moralidades e redes culturais que
têm como fundamento o terreiro. A narração de dona Hilda destaca principalmente a
prática e a participação nas atividades do candomblé, enfatizando as relações entre as
pessoas que conhecem os procedimentos rituais e os aprendizes, eixo estruturante
da continuidade do terreiro. Esse parece também um elemento fundamental para o
desenvolvimento das pessoas, já que em muitos momentos da narração é dado um
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Miguel A. Carid Naveira
destaque especial para a relação entre a formação na religião e a formação como pessoa num sentido mais geral:
“Minha mãe criou muita gente dentro de casa. Criou muitas meninas, mocinhas, que foram iniciadas no candomblé
e que só saíam daqui casadas. Todas casaram” (:48).
A morte ocupa um papel fundamental na fala de dona Hilda, tanto do ponto de vista religioso como existencial
em seu sentido mais pleno. De fato, a narração das breves histórias de vida demonstra que nem sempre as relações
terminam quando as pessoas morrem, pois elas perduram e reaparecem, através da ação das entidades e espíritos,
na comunicação estabelecida com seus sucessores. Se as pessoas passam, como menciona dona Hilsa, seus
espíritos permanecem, e com eles a historia no terreiro: “Minha mãe tinha um ditado que dizia assim: quanto
mais a gente ensina, mais aprende o que ensinou. Eu também falo desse jeito. Quanto mais você participa, mais
aprende e se desenvolve. E é só assim, com todo o respeito, que podemos honrar e dar continuidade às raízes
que a gente traz dos nossos antepassados” (:100).
Nessa cadeia de memória e diálogo de grande profundidade, abre-se uma reflexão para a relação entre os
inquices(divindades) e essa perduração: “Na verdade, minha família materna, a família Rodrigues, iniciou suas
atividades na religião do candomblé muito antes de conhecermos o Tombenci de Salvador. Antes disso, a nossa
família já cultuava os inquices, já seguia esse caminho herdado da minha avó de sangue. Por isso, nós consideramos
que o nosso terreiro foi fundado por ela, em 1885. A gente herdou” (:12).
A relevância que as entidades e seus desdobramentos possuem desenha um mundo aberto pela existência
desses sujeitos que impede visões totalizantes. A possibilidade de agências diversas interferirem de modos muito
diversos nos assuntos dos humanos se manifesta cotidianamente. Acumula-se uma tradição dentro de si, memória
compartilhada e ativada através da manifestação das entidades e espíritos, dos diálogos e contatos de diverso
tipo que se estabelece com eles (ou melhor talvez, que eles estabelecem conosco). Na realidade, a riqueza desse
mundo aparece no livro todo contada a partir de eventos marcantes das sucessivas pessoas que mantiveram o
terreiro em funcionamento durante mais de um século: “Minha mãe, como eu já disse, era de Zumbarandanda,
que é uma inquiceque tem muito a ver com o lado da morte. Nossa mãe de santo dizia que ela é a avó, a mestra.
É a inquicemais velha de todos, uma santa que não é tão comum encontrar em uma casa de candomblé. Depois,
como segundo santo, vinha Mutalambô (um tipo de Oxóssi, como dizem no ketu). O Inkôssi do meu pai também
passava por ela. E tinha um caboclo, o puxa-folha da casa, Seu André Caitumba, um boiadeiro” (:49).
Do lado do temponarra o tempo das pessoas que dirigiram o terreiro e que têm ou tiveram um papel
importante em sua continuidade, suas vidas. Mas biografia, nesta obra, não é só índice de subjetividade ou
individualidade: é de saída uma rede social – um átomo social, para lembrar as palavras de Corbin. E biografia, neste
caso, é também um pedaço da história do Brasil, uma história contada e vivida por dona Hilsa e sua família, uma
história terreiro-centrada que evidencia aspectos tanto individuais como plurais, religiosos e sócio-históricos – se
é que depois da leitura deste livro essa divisão faz algum sentido, visto que é questionada, ao que me parece, pela
inserção multidimensional que o terreiro possui nas vidas das pessoas que o frequentam. Essa história começa
na época da escravatura, quando o terreiro se constituía em refúgio e espaço de negociação entre os patrões, que
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Do lado do tempo
iam buscar os trabalhadores que se escondiam no terreiro, e Yiatidu, nome de santo da avó de Dona Hilsa, sua
fundadora: “Nessa época, havia os senhores de engenho, que tinham seus escravos, e quando eles saíam com o
capitão do mato para fazer as coisas eram muito chicoteados. Alguns desviavam e se deparavam com a casa da
minha avó. Lá ela procurava dar uma guarida para esses escravos. Era uma casa de taipa, que tinha uma camarinha
onde ela cuidava do santo” (:15).
A narradora conta com humor (talvez com humor, pois no texto só há a marca narrativa da primeira pessoa)
o período escuro da perseguição do candomblé na primeira metade do século XX, do Estado contra a sociedade.
Perseguidores e perseguidos são igualados graças à ação dos espíritos, rebeldes à punição policial: “Aí com o
cassetete, ele mesmo foi tentar rasgar os atabaques. Mas, quando pôs a mão em cima do couro, também caiu no
chão. O caboclo do meu tio começou então a cantar e mandou jogarem água no terreiro. Os soldados começaram
a tomar simba, surra de santo, e a rolar pelo chão que estava sendo molhado. Foram ficando enlameados e, quando
todo mundo já estava bem enlameado, meu tio começou cantar. Ele tirou a cantiga que é da palmatória:
Olha a palma do coqueiro
A palmatória atrás do trono eu vou buscar
E olha aê e olha lá
A palmatória é de Angola (:27)
Depois de mostrar vários exemplos da luta contra o Poder na época da escravatura e da repressão de Estado,
o livro finaliza no presente histórico com uma disposição bastante diferente, almejando que o contexto atual de
elogio à diversidade cultural se estenda de forma global à vida das pessoas. O terreiro integra uma rede que liga
religião, história, cultura, música, geografia, etnicidade: “Hoje eu vejo o nosso terreiro funcionando de vento em
popa. Vejo o Memorial, a Galeria, o Dilazenze, a Gongombira, tudo funcionando. E vejo o reconhecimento chegando.
Em 2007, eu recebi o Troféu Zeferina, um prêmio dado pelo Centro de Estudos da População Afro-Indo-Americanas
de Salvador (CEPAIA), que é uma homenagem a todas as mulheres que se destacaram na luta pela cidadania e
pela dignidade, e que marcaram suas comunidades.” (:99).
O livro inclui muitos termos nativos que são convenientemente traduzidos, mas talvez teria sido uma boa
ideia incluir em seu final um breve glossário que permitisse uma consulta rápida em caso de dúvidas aos menos
familiarizados com o vocabulário do Candomblé. Graças à inclusão de abundantes fotografias históricas, escolhidas
do acervo do Memorial do Terreiro “parcialmente reestruturado num excelente trabalho realizado por Simone
Rodrigues” (:8), o leitor poderá perceber através de imagens alguns dos eventos e personagens principais da
narração. A cuidada edição das fotos, sensível ao ritmo dos eventos narrados, inseridas no lugar certo, aumenta
o efeito de unidade que o livro não perde em momento algum.
Pela sua leveza e enfoque biográfico e histórico,Do lado do tempointeressará a um público amplo, tanto
aos frequentadores dos terreiros e interessados no Candomblé em geral −acadêmicos ou não −como aos
antropólogos que trabalhem com esses assuntos ou simplesmente queiram saber mais sobre eles. De fato, este livro
coloca alguns debates gerais do ponto de vista metodológico que mereceriam algum desenvolvimento em futuras
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Miguel A. Carid Naveira
publicações. Como a introdução é muito breve e a aposta da obra é construir uma narrativa que flua por si mesma,
sem referências teóricas ou vozes outras que não a da própria narradora, resulta difícil precisar o modo pelo qual
a narrativa fluiu, seus contextos, a relação com o interlocutor (ou interlocutores), etc. Não sabemos, por exemplo,
se a transcrição foi feita literalmente ou readaptada à linguagem escrita. Sabemos, isso sim, que o antropólogo
redigiu o texto a partir das conversas e que o leu à narradora, que concordou e fez acréscimos e alterações.
Antropologia é tempo, pois antes de mais nada o antropólogo, como cientista social, se destaca pelo tempo
que dedica ao encontro direto com as pessoas com quem trabalha: ouvi-las, fazer o que elas fazem, sensibilizarse perante suas motivações e participar com elas são as fontes fundadoras do conhecimento antropológico. Sem
curiosidade não há antropologia. É esse tempo etnográfico −qualitativamente diferente, já que o fluir da etnografia
não pode se deixar definir por um tema específico (pois os temas são prévios às etnografias), e quantitativamente
significativo, pois são anos da vida dedicados exclusivamente a essa convivência −que está presente nesta obra,
como motivação, como registro. Por isso o título deste livro, ‘Do lado do Tempo’, diz respeito ao tempo do terreiro,
mas também ao tempo da antropologia.

Miguel Carid é doutor em Antropologia Social pelo PPGAS-UFSC e
professor no Departamento de Antropologia da UFPR

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